quarta-feira, 24 de junho de 2009
Somos uma geração à procura de referências


Sempre fui apaixonado por São João. Confesso: uma paixão reprimida durante muitos anos. Desde criança não compreendi muito bem as razões, mas cresci ouvindo que esta não era uma festa evangélica e que deveria manter distância regulamentar daquela fogueira linda que ardia na rua lá de casa. Que vontade de colocar a batata doce ali e deixá-la tostadinha com sabor de brasa. Que som gostoso do forró pé-de-serra com histórias da vida e das gentes. Música com história e com arte. E as comidas de milho, as quadrilhas, os bolos, o arraial e as bandeirinhas? Era tudo tão longe, tão proibido. Distâncias da alegria...

O tempo passou e com a chegada de novos dias descobri que São João permanecia na bagagem. Ele veio comigo nas memórias que não se despedem. Há jeitos de ser criança que ultrapassam preconceitos, discriminações e exclusividades. As religiões dos adultos separam os meninos e as meninas.

Como João foi uma pessoa bonita, cheia de vida e humildade. Preparou os caminhos de Jesus, anunciou boas-novas de salvação, batizou o Filho de Deus, denunciou os religiosos hipócritas de sua época e morreu pelos valores que trazia consigo. De fato, alguém muito especial. Por que não fazer uma festa para ele? Por que não se alegrar pela vida de alguém que nos inspira no caminho do Cristo?
É preciso avançar, quebrar barreiras, reunir famílias, convidar amigos e celebrar a vida. Mais do que isso, é necessário que estejamos dispostos a assimilar exemplos de homens e mulheres que doaram suas vidas, investiram fortemente em suas crenças e depositaram seu futuro em Deus.
Viva São João, que desnudou a religiosidade fria, apática e moralista de seu tempo, mostrando-nos que é possível ser cristão sem ser religioso e ser religioso sem ser cristão.
Viva São João, que compreendeu e aceitou o seu lugar na história, saindo gradativamente de cena para que Jesus manifestasse amor, graça e misericórdia às pessoas.
Viva São João! Que nestes dias nossos relacionamentos estejam firmados em posições de humildade, principalmente quando percebemos que o poder, a arrogância e o dinheiro se apresentam como protagonistas das escolhas que fazemos e do contetamento que possuímos.
Viva São João! Que em tempos de imensa frustração e vergonha com o poder público deste País, sejamos impulsionados na direção da esperança e da renovação para que os caminhos da pobreza e da morte não se perpetuem.
Finalmente, viva São João, pois ele me me faz lembrar todos os dias que o milho é Deus quem dá, que para todos é o munguzá, e que o forró é para a vida alegrar!

Rev. Sérgio Andrade, Deão da Catedral Anglicana da SS Trindade
Publicado no Caderno Cidades-Religião do Jornal do Commércio Recife-PE, em 02.07.2006
Marcadores: Festas Juninas, São João
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14:14.

terça-feira, 23 de junho de 2009
Hoje é noite de São João!
"Não somos puritanos, nossa alma é a barroca, a da alegria, do esplendor".
Fogueira, pipoca, pinhão, quentão, pamonha, canjica… É a vigília de São João Batista. E por ser vigília, trata-se de uma festividade litúrgica.
Claro que os festejos seculares, com comida, bebida, dança, estão presentes. E devem estar: não somos puritanos, protestantes tristes e carrancudos. Nossa alma é a barroca, a da alegria, do esplendor. Somos como a Babette, do filme, e não como o grupo dos puritanos dinamarqueses que ela servia em sua festa.
Todavia, a comida, a bebida, a dança, não esgotam a festa. Como dissemos, é festa litúrgica. É solenidade. Amanhã, dia 24, comemoramos o santo. Hoje, dia 23, esperamos pela festa. É a noite de São João. Comida, bebida e dança, sim. Mas, sobretudo, espera, vigília, Missa, breviário, oração.
Rafael Vitola Brodbeck
Marcadores: Festas Juninas, Protestantes, Puritanismo, São João
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23:59.

domingo, 14 de junho de 2009
Festas Populares
"A Igreja reconhece a importância das festas populares que, quando patrocinadas ou apoiadas pelos poderes públicos, não podem ser atransformadas em "pão e circo" para o povo, como nos tempos imperiais romanos".No nordeste brasileiro, as festas juninas têm um lugar especial, por sua raiz religiosa, enquanto estão ligadas ao calendário santoral da Igreja que cultua a memória de Santo Antônio, São João e São Pedro, considerados, realmente, "santos do povo".
Ao apresentá-los à veneração dos fiéis, a Igreja os propõe como exemplos de vida a serem imitados. Assim, na memória de Santo Antônio, no dia 13 de junho, a Igreja o invoca como "intercessor em todas as necessidades", a exemplo das moças que pedem sua intercessão, em vista de seu projeto de casamento.
No dia 24, festa do nascimento de São João Batista, que trouxe muitas "alegrias espirituais", a Igreja o recorda como aquele que veio "preparar para o Senhor um povo perfeito". Na memória de São Pedro e São Paulo, no dia 29, a Igreja pede a Deus que os fiéis possam "seguir em tudo os ensinamentos destes Apóstolos que nos deram as primícias da fé." A celebração da memória destes santos, portanto, sempre teve um sentido religioso, esse, na verdade, foi o legado das gerações passadas: o momento da oração precede o folguedo e o lado cultural favorece a confraternização do povo.
Hoje, acentua-se o aspecto cultural da comemoração, porém, evidenciam-se desvirtuações notórias no campo da música e da dança que chamam a atenção de pessoas e instituições interessadas na preservação da tradição. É preciso estar atento a essa mudança, efeito do fenômeno da globalização, que repercute na vida de indivíduos e incide no comportamento coletivo, de modo muito visível. Os grandes centros e as comunidades interioranas se deparam com esse quadro. Por isso, as bandas consagradas pela mídia abafam os grupos tradicionais, os cantores renomados tomam o lugar das autênticas vozes regionais, o saldo bancário dos artistas visitantes fica logo recheado, enquanto o cachê dos talentos domésticos fica à mercê da programação do caixa da Prefeitura.
A Igreja reconhece a importância das festas populares que, quando patrocinadas ou apoiadas pelos poderes públicos, não podem ser atransformadas em "pão e circo" para o povo, como nos tempos imperiais romanos. Por sinal, a instrumentalização das festas populares é uma prática generalizada entre os políticos, sempre em busca de dividendos eleitoreiros.
Dom Genival Saraiva, bispo de Palmares
Marcadores: Festas Juninas
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